O setor privado não está sozinho.

A economia brasileira começou um antecipado ciclo de ajuste. A redução da lucratividade das empresas nos últimos trimestres tem exacerbado a necessidade de redução de custos, o que prejudica o mercado de trabalho e desacelera o poder de compra das famílias. Estagnação do setor privado compromete a arrecadação fiscal. Se o governo não conseguir moderar os seus gastos, então o aumento da dívida pública pode implicar em maior custo de financiamento.

1. Ajuste do setor privado

O rendimento médio real subiu em torno de 3,2% a.a nos últimos seis anos, gerando um forte aumento do custo da produção nacional, perda de competitividade e redução da lucratividade. Essa deterioração da rentabilidade das empresas tem prejudicado a contratação de novos trabalhadores. Menor crescimento da massa salarial comprometerá o dinamismo do consumo corrente ao longo dos próximos trimestres.

Além disso, o aumento de taxa básica de juros e o elevado comprometimento de renda das famílias com pagamento de juros e amortização de dívida contribuirão para desaquecer o crédito pessoal. Enfim, o período de exuberância do consumo privado acabou.

2. Ajuste no setor público

O superávit primário passou de 1,8% do PIB no ano passado para apenas 1,4% do PIB em junho desse ano. O desempenho da atividade é primordial para a arrecadação fiscal. Assim, nossa estimativa de estagnação do setor privado sugere um cenário desafiador para as contas públicas.

O risco de insolvência fiscal é mínimo com a dívida pública líquida em torno de 35% do PIB, mas uma eventual alteração nessa trajetória poderia aumentar o custo de financiamento do País.

3. Capacidade de oferta limitada

Nossa capacidade de produção desacelerou nos últimos anos. Enquanto a recente queda da População Economicamente Ativa (PEA) tem reduzido nossa força de trabalho, a estagnação da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) não tem contribuído para um aumento do estoque de capital. Estimamos que (temporariamente) o PIB potencial está abaixo de 1,5% a.a..

Um eventual aumento do custo de oportunidade prejudicaria adicionalmente as decisões de investimento. Aliás, indicadores de confiança dos empresários não sugerem uma ampla disposição a investir em novos projetos.

Portanto, a necessidade de redução de custos pelas empresas tem um efeito colateral, a estagnação da atividade. Essa falta de dinamismo econômico prejudica as contas públicas e, em última instância, poderá aumentar o custo de financiamento e prejudicar adicionalmente a confiança dos empresários. Enfim, o ciclo endógeno precisa ser revertido com um amplo choque de oferta positivo.

 

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki é economista-chefe do BNP Paribas Asset Management. Graduado em Economia pela UNICAMP, possui mestrado em teoria econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Iniciou sua carreira como economista no Banco UNIBANCO, passou pelo ABN AMRO Asset Management e juntou-se ao BNP Paribas Asset Management em agosto de 2006, como economista-chefe, tornando-se responsável pela área de Economia e Estratégias Macro a partir de julho de 2013.

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