Muito estranho . . .

O cenário internacional está cada vez mais desafiador. A famosa frase ‘não existe almoço grátis’ está sempre presente nos nossos debates e significa que todo excesso de demanda é uma antecipação de consumo futuro. Esse conceito é válido para pessoas, empresas e governos.

No caso de um indivíduo, a compra de um produto em 36 parcelas implica que parte da sua renda mensal nos próximos três anos será destinada para honrar o compromisso assumido no passado. Não há problema algum nos empréstimos conscientes. A situação pode ficar complicada se houver uma redução no nível da renda. Nesse caso, o valor das prestações pesariam mais do que o esperado no orçamento familiar e, provavelmente, um corte de despesas supérfluas seria a primeira linha de reação. Se a renda continuar surpreendendo negativamente, outros gastos seriam cortados. Em última instância, o indivíduo tentaria uma renegociação do empréstimo ou caminharia para a lista de inadimplentes.

Essa situação pode ser extrapolada para o setor corporativo. Se uma empresa toma vultosos empréstimos com a expectativa de forte expansão das vendas, uma eventual estagnação econômica pode fragilizar sua situação financeira. Utilizando dados de junho de 2015, a dívida do setor corporativo não financeiro atingiu 163% do PIB na China e 226% do PIB em Hong Kong (média mundial em 90% do PIB). A construção dessa elevada alavancagem foi muito rápida nos últimos dez anos, cerca de 8,5p.p. do PIB ao ano na China e 12,5 p.p. do PIB ao ano em Hong Kong.

O problema é que encontramos fortes indícios de deterioração da atividade asiática, como forte queda das exportações e estagnação da produção industrial. Isso antecipa um ciclo de deterioração das receitas e, consequentemente, prejudicará os indicadores de endividamento. Importante destacar que o nosso cenário base não incorpora eventos de ruptura, mas estamos reconhecendo possíveis riscos de cauda.

Nos EUA, reduzimos a nossa projeção para o PIB real de 1,8% para apenas 1,5% em 2016. Os indicadores prospectivos não sugerem forte recuperação da atividade no curto prazo e, mais uma vez, ressaltamos nossa preocupação com a estagnação do lucro corporativo nominal desde 2012. Ausência de expansão do lucro deverá desacelerar o ritmo de contratação de novos trabalhadores e, naturalmente, reduzirá o ritmo de expansão do consumo das famílias.

Também não podemos deixar de mencionar que a situação dos países europeus não está confortável. A queda generalizada da produção manufatureira e, especialmente, a retração de encomendas para a Alemanha sugerem menor expansão do emprego, renda e consumo nos próximos trimestres.

Enfim, a atividade mundial apresenta inúmeros sinais de exaustão. Produção e receita consistentemente abaixo do esperado podem deteriorar indicadores de endividamento. A consequência natural de uma estagnação generalizada será a discussão sobre alavancagem dos governos, empresas e consumidores.

Esse documento contém informações e declarações prospectivas referentes ao mercado em geral, as quais não constituem fatos históricos e não há garantia de ocorrerão. O BNP Paribas Brasil não se responsabiliza por eventual perda causada pelo uso de qualquer informação contida neste documento. Este documento é de uso exclusivo do destinatário, não podendo ser reproduzido, ao todo ou em parte, sem prévio consentimento. Qualquer divulgação, cópia, distribuição ou qualquer ação conduzida ou omitida para que se baseie nisso, é proibida e pode ser considerada ilegal.

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki é economista-chefe do BNP Paribas Asset Management. Graduado em Economia pela UNICAMP, possui mestrado em teoria econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Iniciou sua carreira como economista no Banco UNIBANCO, passou pelo ABN AMRO Asset Management e juntou-se ao BNP Paribas Asset Management em agosto de 2006, como economista-chefe, tornando-se responsável pela área de Economia e Estratégias Macro a partir de julho de 2013.

1 Resultado

  1. Dimas Miranda disse:

    Essa colossal alavancagem mundial deve-se aos estímulos keynesianos dos Banco Centrais mundo afora e os demais bancos em mercados concentrados como o nosso Brasil, quando por exemplo, criam dinheiro do nada através de dígitos eletrônicos nas contas dos clientes e não possuem um ativo correspondente. Uma hora um caos é certo de acontecer, arranjos baseados em demanda não se sustentam.

Deixe uma resposta