Investimento em áreas de prostituição e drogas e o viés de omissão

Parte do título deste artigo remete à interessante matéria publicada recentemente pela revista americana Chief Investment Officer (CIO) e traduzido por InvestidorOnline em 18 de julho passado, sobre os investimentos de dois fundos de pensão holandeses numa conhecida área portuária de Amsterdan frequentada por pessoas em busca de prostituição e drogas. Claro que os fundos de pensão não estão investindo em atividades de sexo, drogas e rock’n roll, esse investimento de US$ 67 milhões é para recuperar e revitalizar a área, que inclui o distrito da Luz Vermelha, transformando-a num bairro residencial atraente e com empresas criativas e de varejo.

Isso mostra como os fundos de pensão da Holanda, em busca de melhores retornos para suas carteiras, têm optado por investimentos anteriormente tidos como fora do tradicional cardápio dessas instituições. O motivo para buscarem essas carteiras não tradicionais, e até excêntricas, é o estranho fenômeno das taxas negativas de juros. Algo ainda distante do cenário brasileiro.

Chama atenção que fundos de pensão europeus prefiram investir nesses segmentos absolutamente excêntricos à títulos da dívida brasileira, o que nos lembra que a percepção de risco sobre certos ativos não é homogênea  ou linear. Ao contrário, risco é subjetivo e existem formas de se perceber.

Mas esse artigo remete a uma outra lição, sobre a qual gostaria de me debruçar: a inovação do sistema financeiro. “O que deu certo nos últimos oito anos não vai dar certo nos próximos oito“. A polêmica declaração do diretor de investimentos da BlackRock, Ingo Heinen,  mais do que nunca vale para o Brasil.

A PEC do teto dos gastos públicos federais vai limitar as despesas do governo. Consequentemente, a dívida pública e a taxa de juro real não poderão permanecer no atual patamar. Teremos um novo cenário de investimento.

Afinal, o Brasil não pode continuar alimentando o perverso ciclo de captura da poupança privada, através de títulos públicos para financiamento de gastos do governo, o que trará como consequência a necessidade de novas alternativas de investimento.

Agora, imaginem apresentar a estrutura de investimento dos fundos holandeses para os reguladores brasileiros, cuja função se detém a uma postura sancionadora e negativa, em contraste a de um estado promocional que tende a assumir um papel modificador e criador, um verdadeiro trabalho de Sísifo.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu já nos dizia que não existe nada mais difícil de se revolucionar que as estruturas mentais e, em nosso caso, a origem dessa dificuldade é aceitar a própria dinâmica econômica. Impera na nossa cultura um perfil extremamente conservador e rentista, que culmina na pseudo segurança dos investimentos em títulos públicos federais, como se deles fôssemos extrair o ouro de tolo moderno, representado pela ideia de investimentos com rentabilidade e segurança concomitantes.

Não por menos, o mundo inteiro possui uma diversificação de investimentos que inclui além dos títulos públicos também diversos outros instrumentos. Porém, temos o fixo conceito que ser mais conservador representa o melhor caminho para o desenvolvimento econômico, o que, paradoxalmente, cria uma economia instável e fechada. O trágico, que por definição não envolve nenhuma violação da virtude, assim como o bruto que a despeito das suas nobres intenções atrai a desgraça para seu país e a morte para si.

Faz-se crítico, então, entender que a maneira como os governos lidam com a tensão entre inovação e continuidade pode determinar o destino da sociedade.

Como disse, falta entender o básico da dinâmica econômica. Schumpeter, célebre economista austríaco, afirmou ser a inovação a força central na transformação econômica de uma sociedade. Inovação essa que é definida através de novas combinações de organização econômica, que representem uma transição de práticas estabelecidas migrando para um modelo inovador, um novo paradigma.

As inovações não são necessariamente produtos tecnológicos gerados por ideias diversas. Na essência, são mudanças estruturais que nos levam a agir de uma outra maneira, ou mesmo ter uma nova abordagem em relação a formas de atuação e de funcionamento da sociedade e seus agentes.

Portanto, a inovação é o motor do desenvolvimento econômico, mas implica em alterações dos papéis e das estruturas sociais, o que, obviamente, causa certa tensão entre o status quo e as novas formas que sugere, inclusive de investimento. Administrar as interações entre continuidade e mudança mantém-se uma das mais críticas funções dos governos.

Por isso, países desenvolvidos criam uma relação dinâmica que permite uma normatização voltada para o estímulo da inovação em benefício da sociedade, administrando essa transição de mudança do ambiente social. A manutenção de estruturas burocráticas centralizadas representa conformidade. Essa ligação ao status quo tem origem em como percebemos o risco, o que se define por viés de omissão, pois subestimamos o risco de não se fazer nada, prendendo-se ao funcionamento das coisas como são e superestimamos o risco de mudanças, favorecendo a inação sobre a ação.

Visto sob esse prisma, o investimento em ativos alternativos ou estruturados resulta em dinamismo econômico, com consequente geração de valor para a sociedade e é essa a grande mensagem que transparece no artigo ao qual faço menção no início desse texto. Há uma indústria internacional que, dentro de um determinado ordenamento jurídico, não se oprime evitando buscar soluções criativas para superar obstáculos ou mesmo promover o desenvolvimento econômico. Ao contrário, o faz com apoio de um agente regulador que entende que o risco gera a inovação e essa é chave para o crescimento econômico. Sem o desenvolvimento de um leque de produtos de investimentos, não se deve esperar crescimento econômico consistente.

Obviamente, crises virão, mas, como lembra Hanna Arendt, uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-formados, algo próximo ao que vimos recentemente no Brasil.

Arthur Pinheiro Machado

Arthur Pinheiro Machado

Arthur Pinheiro Machado é CEO da ATG (Americas Trading Group), empresa que estabeleceu um novo patamar em electronic trading para a América Latina e atua no projeto de criação de uma nova bolsa de valores no país. Além deste blog, Arthur é colunista das revistas Forbes e Fortune Internacional.

1 Resultado

  1. Cid Costa disse:

    Me faz recordar do investimento que o Igeprev- TO fez no empreendimento hoteleiro à época, Golden Tulip BH, localizada na zona do alto meretrício mineiro…Péssima localizaçāo em 2014, atualmente nāo sei a real situaçāo…

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