Estratégias de Investimento Responsável

Atualmente, mais de ¼ de todo o recurso gerido profissionalmente no mundo é investido em estratégias de investimento responsável, somando USD 22,9 trilhões, segundo a Global Sustainable Investment Alliance – GSIA.

Mas o que é investimento responsável?

O surgimento do investimento responsável remete ao início do século XX quando as questões éticas passaram a influenciar nas estratégias de alguns investidores – inicialmente aqueles de cunho religioso. Já nos anos de 1970, a Guerra do Vietnã incitou a criação do primeiro fundo SRI, o Pax World Fund, o qual vetou investimentos em empresas de armamentos.

Com o passar dos anos, a estratégia para incorporação dos aspectos ESG (ambiental, social e governança corporativa, na sigla em inglês) na tomada de decisão financeira passou por avanços. Os critérios para definir o portfólio de investimentos considerando os aspectos ESG são: filtros, best in class, integração ESG, ativismo acionário e engajamento.

Os filtros, mais conhecidos por screenings, podem ser positivos, negativos ou temáticos. O screening negativo consiste em excluir do universo de investimentos certos setores, geralmente os mais controversos, como tabaco, bebidas alcoólicas e armamentos. O screening positivo prioriza as companhias que possuem melhores práticas no âmbito da sustentabilidade. Já o screening temático concentra os investimentos em companhias ou setores específicos, como empresas com melhores práticas de governança corporativa ou setor de energias renováveis, por exemplo.

Comumente, analistas que utilizam o screening positivo também realizam a estratégia de best in class, que elenca a melhor empresa considerando a performance das demais organizações de setor de atuação. A integração ESG é a estratégia de inclusão explícita de riscos e oportunidades ESG na análise financeira e nas decisões de investimento pelos gestores de recursos, com base em um processo sistemático.

Por fim, o ativismo acionário e o engajamento são mais frequentes em investidores europeus e americanos. Nessas estratégias, além dos investidores avaliarem as melhores práticas, participam ativamente de assembleias de acionistas, assinam petições e elaboram iniciativas para engajar as companhias a respeito do tema.

Além dessas estratégias, há outros meios de investir responsavelmente?

Os Green Bonds e os Social Bonds são instrumentos criados justamente para facilitar o mercado de investimento responsável. Os Green Bonds são títulos de renda fixa (corporativos ou governamentais) com intuito de captar recursos para implantar ou refinanciar projetos novos e existentes com benefícios ambientais. Embora os primeiros Green Bonds tenham sido emitidos em 2007, apenas em 2011, com a emissão do primeiro título corporativo, é que o mercado dos títulos verdes ganha tração. Segundo a Climate Bonds Initiative, em 2016, o total de emissões global somou USD 81 bilhões e a expectativa para 2017 é que sejam emitidos USD 150 bilhões.

Os Social Bonds, também chamados de Social Impact Bonds, são títulos de renda fixa que tem como objetivo remunerar o investidor a partir de métricas sociais. Em 2007, foi emitido o primeiro Social Bond, tratando-se do sistema prisional britânico em Peterborough, em que a remuneração ao investidor era baseada na quantidade de não reincidentes à prisão. De lá para cá, mais de 60 títulos já foram emitidos em 15 países diferentes, segundo a Social Finance. No Brasil, devido à legislação nacional não permitir a negociação dos títulos em mercado secundário, foi criado o mecanismo de Contratos de Impacto Social (CIS). Embora nenhum tenha sido emitido no Brasil, há estudos nos governos de São Paulo e Ceará.

Na mesma linha dos Social Bonds, outra estratégia de grande crescimento no mundo é o de impact investing, ou investimento de impacto, em que investimento em uma companhia busca resultado socioambiental mensurável, além de retornos financeiros. Segundo a Global Sustainable Investment Alliance – GSIA, em 2016, mais de 100 bilhões de dólares foram alocados em investimentos de impacto.

O mercado brasileiro ainda é embrionário, mas o estudo publicado no fim de 2016 pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE), em parceria com a Latin American Private Equity & Venture Capital Association (LAVCA) e LGT Impact Ventures, apresenta que no País já foram realizados 48 investimentos, totalizando 70 milhões de dólares e que a expectativa de retorno financeiro anual líquido é superior a 16%.

Afinal, onde encontrar casas que ofereçam as estratégias de investimento responsável?

Atualmente, grandes assets e fundos de pensão já se comprometem em investir responsavelmente, cumprindo o dever fiduciário ao assumir a gestão dos recursos de um conjunto de indivíduos. Os Princípios para o Investimento Responsável (PRI) conta com mais de 1.700 signatários, que juntos representam mais de 60 trilhões de dólares sob gestão. No Brasil, 17 fundos de pensão e 23 gestoras de recursos são signatários da iniciativa.

Contudo, o mercado brasileiro de fundos socialmente responsáveis (SRI, na sigla inglesa para socially reponsible investment) ainda é pequeno e, segundo pesquisa realizada pela ANBIMA em 2016, apenas 39% das casas gestoras que participaram do estudo integram as questões ESG em suas tomadas de decisão de investimento, sendo a Bradesco Asset Management (BRAM) uma delas.

Embora o tema seja relativamente novo no mercado financeiro, a urgência de soluções para os desafios socioambientais do mundo contemporâneo é indiscutível. As companhias que não se atentarem aos novos desafios globais podem incorrer em multas ou maiores taxações, impactando seu fluxo de caixa, além de sofrer defasagem competitiva no futuro, destruindo valor ao acionista.

Em razão disso é que as estratégias de investimento responsável têm ganhado força nos últimos anos e aparentam ser uma tendência que virará mainstream. No Brasil, podemos observar que governança corporativa já virou um tema integrado à análise financeira, mas esse assunto fica para o próximo artigo.

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