Condição necessária, mas não suficiente.

Apesar do ditado popular afirmar que Deus é brasileiro, ainda não tivemos milagre. O aumento dos indicadores de confiança não foi capaz de melhorar as condições do mercado de trabalho e nem as condições de crédito. No terceiro trimestre, o desemprego chegou para mais 875 mil pessoas e a concessão de crédito real caiu 3,1%, ambos com nosso ajuste sazonal. Queda de massa salarial real e restrição de crédito geraram, naturalmente, o sétimo trimestre consecutivo de queda da demanda doméstica.

Reiteramos que a melhora da confiança é condição necessária, mas não suficiente para a retomada da atividade. Outro fator básico para entender a recessão é o ciclo de alavancagem dos agentes da economia, a saber:

a. Governo: a estabilização da dívida pública requer forte aperto fiscal nos próximos anos, o que significa corte de gastos e/ou aumento de impostos. O necessário processo de consolidação fiscal contribuirá negativamente para a demanda doméstica no curto prazo.

b. Empresas: o elevado patamar de endividamento, a baixa lucratividade e a alta ociosidade dos fatores de produção não favorecem uma recuperação imediata dos investimentos fixos. A necessária recomposição da lucratividade implica em controle de custos e, consequentemente, aumento da taxa de desemprego nos próximos trimestres.

c. Famílias: a retração do mercado de trabalho e o aumento da taxa de juros para pessoa física têm impedido o processo de desalavancagem dos indivíduos. As famílias continuam utilizando cerca de 22% da renda mensal com pagamento de juros e amortização de dívida passada, prejudicando as decisões de consumo no presente. Lembrando que as empresas não devem iniciar um processo disseminado de contratação de novos trabalhadores no curto prazo, não vislumbramos recuperação consistente do consumo até meados do próximo ano.

d. Setor externo: a expansão moderada do comércio mundial  e a valorização da taxa de câmbio real prejudicam nossas exportações. O setor externo deve continuar contribuindo negativamente para a produção interna no próximo ano.

A necessidade de ajuste no balanço do governo, das empresas e das famílias prejudica a demanda doméstica e, naturalmente, suporta nosso cenário de recuperação gradual da atividade no médio prazo. Por outro lado, esse ambiente aumenta a sensibilidade dos consumidores aos preços e possibilita um processo de desinflação mais intenso.

Acreditamos que o Banco Central do Brasil possui amplo espaço para cortar a taxa Selic para 9,50% a.a. no final de 2017. Esse ciclo de redução da taxa de juros contribuirá para o processo de desalavancagem dos agentes da economia e poderá gerar um forte impulso para a atividade em 2018. Assim, entendemos que o afrouxamento monetário é outra condição necessária para a recuperação do consumo das famílias e do investimento das empresas.

Portanto, o leitor mais conservador pode concluir que o processo de desalavancagem posterga a recuperação da atividade. Já o leitor mais otimista pode sugerir que possuímos muito espaço para reduzir a taxa de juros e recuperar as condições de demanda doméstica. Ambos estão corretos. Se as reformas forem aprovadas e a taxa de juros recuar estruturalmente, poderemos impulsionar a atividade ao longo do tempo. Bem vindo a 2018.

 

Esse documento contém informações e declarações prospectivas referentes ao mercado em geral, as quais não constituem fatos históricos e não há garantia de ocorrerão. O BNP Paribas Brasil não se responsabiliza por eventual perda causada pelo uso de qualquer informação contida neste documento. Este documento é de uso exclusivo do destinatário, não podendo ser reproduzido, ao todo ou em parte, sem prévio consentimento. Qualquer divulgação, cópia, distribuição ou qualquer ação conduzida ou omitida para que se baseie nisso, é proibida e pode ser considerada ilegal.

 

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki é economista-chefe do BNP Paribas Asset Management. Graduado em Economia pela UNICAMP, possui mestrado em teoria econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Iniciou sua carreira como economista no Banco UNIBANCO, passou pelo ABN AMRO Asset Management e juntou-se ao BNP Paribas Asset Management em agosto de 2006, como economista-chefe, tornando-se responsável pela área de Economia e Estratégias Macro a partir de julho de 2013.

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