Comentário mercado dezembro 2016

Chegamos ao final de um ano que deixará saudades para o investidor, apesar de todas as complicações políticas e econômicas. A renda fixa apresentou ótimos retornos e riscos relativamente baixos. O IMA-B5+, que mede a rentabilidade das NTN-Bs de longo prazo, apresentou rentabilidade de 3,71% no mês, encerrando o ano com um rendimento de 31,04%. O IMA-B5, que mede a rentabilidade média das NTN-Bs de curto prazo, teve rendimento de 1,39% e fecha o ano com uma alta de 15,48%. O IMA-S, que mede a rentabilidade dos títulos públicos indexados à taxa SELIC, fechou o mês com alta de 1,10%, acumulando um ganho de 13,84% em 2016. O IRFM, que mede a rentabilidade dos títulos pré-fixados, teve alta no mês de 1,84%, fechando o ano com alta de 23,37%.

O IBOVESPA fechou dezembro com uma queda de 2.71%, mas o ganho para o ano de 2016 foi ótimo, acumulando alta de 38,94% em 2016. O dólar – de acordo com o câmbio oficial, PTAX – termina 2016 cotado a R$ 3,2591, uma queda de 16,54% em 2016.

Nos primeiros dias de 2017, nos perguntamos o que o novo ano nos reserva. Essa pergunta nunca é fácil de ser respondida. No entanto, podemos esperar mercados nervosos e rentabilidades piores do que as de 2016.

Já conhecemos os membros do novo governo de Donald Trump. Tudo indica que as relações internacionais dos EUA com a China irão piorar, o que não é bom, pois uma guerra econômica entre as duas potencias pode azedar os mercados e respingar aqui.

As medidas de Trump podem causar aumento de atividade americana, que é bom para todo o mundo. Mais atividade lá pode se traduzir em crescimento para nós. Por outro lado, o aquecimento da economia norte americana pode gerar mais inflação, principalmente de salários, obrigando o FED (Banco Central Americano) a elevar as taxas de juros, o que não é bom para nós. Como nossa taxa de juros é a maior do mundo, temos espaço para cortes, a dúvida é o tamanho desse espaço.

Europa e Japão devem continuar com economias mornas, sem grandes mudanças no cenário de 2016. O movimento nacionalista deve crescer na região causando uma mudança na orientação politica do bloco, mas tudo feito ao ritmo do velho mundo, a exemplo da retirada do Reino Unido.

China é sempre uma incógnita. Até a virada do ano, os indicadores de confiança na economia chinesa vieram marginalmente mais fracos. Entretanto, os primeiros dados publicados esse mês mostram uma economia chinesa mais forte, influenciando fortemente as ações de empresas exportadoras de commodities. O tema de 2017 é, sem duvida, o relacionamento comercial entre China e EUA. Trump prometeu maior proteção à indústria local, e terá que implementar algo. Qualquer medida protecionista terá efeito direto na China, que deve reagir, seu crescimento depende muito das exportações para os americanos.

O ano de 2016 fica para nossa história como o ano da pior crise que já vivemos. Os desafios se estendem para 2017. Alguns Estados e Municípios estão quebrados, o descontrole nos gastos e a queda na arrecadação devastou as contas públicas em todos os níveis. O déficit primário do governo central (gastos acima das receitas) foi de R$ 38,356 bilhões em novembro, o pior resultado para o mês desde 1997. De janeiro a novembro, o déficit chegou a R$ 94,158 bilhões. Nos 12 meses encerrados em novembro, o déficit somou R$ 154,791 bilhões, o pior resultado desde o início da série histórica do Tesouro Nacional, em 1997.

Estamos vivendo o que os economistas chamam de ciclo vicioso. Menos crescimento causa uma diminuição da massa salarial. Com menos dinheiro no bolso as pessoas gastam menos. A indústria (e os serviços) vende menos causando menos crescimento, que impacta os salários e assim por diante.

Os dados do Produto Interno Bruto, que mede a produção nacional, só serão conhecidos no mês que vem, entretanto espera-se uma queda de 3.5% para 2016. Para 2017 a expectativa é de um modesto crescimento de 0,58%, insuficiente para reverter o quando que vivemos.

A forma tradicional para fazer a economia crescer é incentivar o consumo das famílias, empresas e governo, o que Trump promete fazer nos EUA. No Brasil não temos como fazer isso. As pessoas não gastam, pois estão com menos dinheiro e com medo de perder o emprego. Os governos (todos), muito endividados, não têm dinheiro para investir em obras públicas (infraestrutura). Alguns estados e municípios estão até sem dinheiro para pagar os funcionários. Sem consumidor, o empresário não investe. Para complicar ainda mais nossa situação, o clima político nacional é péssimo.

O ano de 2017 será melhor do que 2016, até porque é difícil piorar, mas nossa recuperação não virá esse ano.

Seus Investimentos

Continuamos achando que a renda fixa proporcionará bons ganhos. Nossa taxa de juros está muito alta e a inflação de 2017 deve ser mais baixa, dando espaço para o Banco Central, corta-la. Nesse quadro, os títulos de renda fixa prefixados proporcionam bons resultados para quem pode assumir risco. Mesmo com baixa inflação, a rentabilidade das NTN-Bs deve ser boa.

Com baixo crescimento da economia para os próximos dois anos, a lucratividade das empresas não deve aumentar, diminuindo a atratividade da bolsa.

Lauro Araújo

Lauro Araújo

Diretor da Lockton Corretora de Seguros e Consultoria, empresa americana especializada em benefícios, gestão de risco e consultoria atuarial e de investimentos. Formado em Administração de Empresas, já trabalhou em consultorias de investimentos nacionais e internacionais e em gestoras de recursos como a JP Morgan e Bradesco Templeton Asset Management.

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