Cenário Econômico: será um ano inesquecível . . .

=>  Economia Internacional

A economia mundial deverá acelerar gradualmente ao longo desse ano, impulsionada pelos consumidores americanos. A zona do Euro deverá ser beneficiada pelo setor exportador, mas as condições financeiras precisam ser afrouxadas por uma nova rodada de estímulos pelo BCE. Na China, o fim do bônus demográfico está iniciando uma tendência secular de desaquecimento moderado, que poderá ser minimizado por estímulos monetários e fiscais no primeiro semestre. Enfim, enquanto alguns países devem iniciar ou continuar um ciclo de aperto da política econômica, outros devem iniciar ou continuar o afrouxamento monetário e fiscal. Não podemos generalizar a ação do FED para todos os países do globo . . .

1.EUA: A águia está voando.

Após vários anos de forte redução da alavancagem, as famílias americanas estão prontas para um novo ciclo de consumo. Todos ingredientes para esse novo ciclo estão presentes: riqueza líquida dos indivíduos atingiu maior patamar histórico, comprometimento de renda com pagamento de serviço de dívida atingiu o menor patamar da série histórica e a taxa de desemprego caiu de 7,9% em dezembro de 2012 para apenas 5,6% no final do ano passado.

As condições para continuidade da expansão do mercado de trabalho permanecem, pois o custo unitário do trabalho continua crescendo em ritmo moderado e abaixo da média histórica. Isso significa que a taxa de desemprego deve continuar recuando e atingir o nível natural (NAIRU) até o final desse ano. Dessa forma, esperamos que os salários continuem acelerando e a massa salarial impulsione adicionalmente o consumo das famílias.

Também não podemos deixar de mencionar que o nível de utilização da capacidade instalada da indústria americana já está elevado e sugere aceleração dos investimentos. Por fim, o setor público deixará de contribuir negativamente para a demanda doméstica em 2015. Assim, reiteramos nossa projeção de crescimento real em 3,5%, com viés para cima.

2.Zona do Euro: Todos apostando na bazuca do BCE.

O principal canal de crescimento da região deverá ser o setor exportador, diante da desvalorização do Euro e a aceleração da economia americana. Enquanto isso, a demanda doméstica da zona do Euro continuará frágil. O consumo permanece sentindo os efeitos do fraco desempenho do mercado de crédito e da elevada taxa de desemprego. Aliás, importante notar que o elevado custo do trabalho em vários países indica que o ajuste do mercado de trabalho ainda não terminou.

Os investimentos também não devem mostrar forte desempenho, pois a utilização da capacidade instalada permanece baixa. Assim, restará ao BCE lançar um novo programa de estímulo monetário ao longo desse semestre para impulsionar a demanda local. Estimamos uma pequena aceleração do PIB real de 0,8% em 2014 para 1,2% para 2015.

3.China: Governo deve agir no início do ano.

Economias caminham em ciclos ao redor de uma tendência. O fim do bônus demográfico está iniciando uma tendência secular de menor ritmo de crescimento da economia chinesa. Essa nova direção acontece após aumento da renda disponível per capita em 15,8% ao ano nos últimos 10 anos. Esse desaquecimento nas próximas décadas é um processo natural do desenvolvimento.

No entanto, a atividade desacelerou de forma mais acentuada no final do ano passado, em resposta ao aperto fiscal realizado no segundo semestre e a contração das condições financeiras. Considerando o ambiente deflacionário no atacado, acreditamos que o governo deverá divulgar medidas de estímulo no início desse ano para minimizar o risco de um desaquecimento mais abrupto. Dessa forma, estimamos PIB real em torno de 6,8% em 2015, ante 7,3% em 2014.

 

=> Economia Brasileira

As vendas de varejo real cresceram 30% entre 2010 e 2013 ( média de 9,1% ao ano), enquanto a produção industrial retraiu 4% no mesmo período. Essa exuberância do consumo foi impulsionada, entre outros fatores, pelo afrouxamento das condições monetárias e creditícias, expansão fiscal e aumento dos salários acima da produtividade. Nenhum desses fatores seriam sustentáveis, pois as famílias e o governo não podem aumentar seu endividamento infinitamente e as empresas não operam com lucro econômico negativo no longo prazo.

Nosso cenário mais conservador do que o consenso incorpora esses conceitos fundamentais. Entendemos que após o período de exuberância, a conta começou a ser paga no ano passado e aprofundará nesse ano. Assim, nossa projeção incorpora uma retração do nível da atividade em 1,0% em 2015, com viés para baixo. Entendemos que não existem fatores para impulsionar nossa demanda doméstica e a única contribuição positiva acontecerá nas exportações líquidas, a saber:

– Consumo das Famílias: o elevado custo trabalhista deteriorou a lucratividade das empresas brasileiras, o que restringirá o desempenho do mercado de trabalho nos próximos trimestres. A população ocupada permaneceu estagnada no ano passado e deverá retrair em 2015. Além disso, o ciclo de aperto monetário promovido pelo BCB e a perspectiva de moderação na concessão de crédito pelos bancos públicos prejudicarão o desempenho do consumo das famílias. Por fim, não podemos esquecer que o forte aumento de preços administrados impactarão negativamente o poder de compra dos indivíduos.

– Investimento: a baixa utilização da capacidade manufatureira e a baixa poupança nacional limitarão os investimentos. Estimamos nova retração da formação bruta de capital fixo.

– Governo: o aperto fiscal prometido pelo novo governo deverá desaquecer o ritmo de expansão dos gastos públicos.

– Exportações: a desvalorização cambial e, especialmente, a aceleração no crescimento mundial beneficiarão marginalmente as exportações.

– Importações: a desvalorização cambial e a queda da demanda doméstica devem retrair substancialmente as importações, o que contribuirá positivamente ao PIB. Ou seja, nosso cenário inclui substituição de produtos importados por nacionais.

A queda da demanda doméstica e a desvalorização da taxa de câmbio real beneficiarão o saldo comercial, que passará de um déficit de USD 4 Bi em 2014 para um superávit em torno de USD 10 Bi em 2015. Ademais, importante lembrar que, menor geração de lucros também contribuirá para a melhora das transações correntes. Considerando também o elevado diferencial de taxa de juros vigente no mercado financeiro, antecipamos um importante resultado positivo no balanço de pagamentos nesse ano.

A ociosidade da economia brasileira deverá aumentar consistentemente ao longo dos próximos trimestres. Nossa medida de hiato do produto está no terreno negativo desde o segundo trimestre do ano passado e contribuirá para a continuidade da desinflação de preços livres. No entanto, a pressão dos preços administrados deverá levar o IPCA para 6,6% neste ano. Após esses reajustes pontuais, a inflação ao consumidor deverá iniciar trajetória declinante para cerca de 5% em 2016 (ambos com viés para baixo).

O que esperar da política monetária em ambiente de recessão com inflação no teto da meta? Entendemos que, no primeiro semestre, a autoridade monetária continuará o ciclo de aumento da taxa Selic para 12,50% em resposta às pressões de curto prazo. Mas, a partir do terceiro trimestre, a ênfase na inflação prospectiva levará o BCB a iniciar um ciclo de afrouxamento monetário para reconstruir a base para uma aceleração cíclica da atividade no próximo ano.

Portanto, após o forte impacto negativo dos ajustes econômicos durante 2014 e 2015, antecipamos uma tendência de recuperação gradual a partir de 2016.

Que venha 2016 !

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Eduardo Yuki

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki é economista-chefe do BNP Paribas Asset Management. Graduado em Economia pela UNICAMP, possui mestrado em teoria econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Iniciou sua carreira como economista no Banco UNIBANCO, passou pelo ABN AMRO Asset Management e juntou-se ao BNP Paribas Asset Management em agosto de 2006, como economista-chefe, tornando-se responsável pela área de Economia e Estratégias Macro a partir de julho de 2013.

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