Brasil: Retração da atividade também em 2016.

A retração da atividade deverá continuar no próximo ano. A demanda doméstica continuará em queda nos próximos trimestres, em virtude da necessidade de maior aperto fiscal, continuidade do ciclo de aperto monetário e ampliação do ajuste do custo de trabalho. O único alívio será a substituição de consumo de produtos importados por produção local após a desvalorização da taxa de câmbio real ocorrida desde meados de 2011. Assim, reduzimos nossa projeção para o PIB real de 2016 de zero para -1,2% (estimativa para 2015 permanece em -2,1%).

 

=> Consolidação fiscal

Apesar do esforço do governo na busca do superávit primário em torno de 1% do PIB para esse ano, o resultado final tem sido decepcionante. O resultado primário encerrou o ano passado com déficit de 0,59% do PIB e atingiu, em maio desse ano, déficit de 0,68% do PIB. Ou seja, após cinco meses da nova gestão, a dificuldade em alcançar a meta estipulada está cada vez mais evidente. Entendemos que o esforço realizado através de contenção de gastos e corte de subsídios ainda não foi suficiente para reverter a trajetória declinante das contas públicas, pois a queda abrupta da demanda doméstica prejudica a arrecadação fiscal. Assim, novas medidas precisam ser anunciadas nesse e no próximo ano para reverter a trajetória de deterioração das contas públicas . . . o que prejudicará adicionalmente as condições de consumo das famílias a frente.

 

=> Aperto monetário

O banco central está travando uma dura batalha contra as expectativas de inflação do consenso dos economistas. O ciclo de aperto monetário elevou a taxa de juros básica de 7,25% em abril de 2013 para 13,75% no mês passado. Esperamos uma última alta de 0,5 ponto percentual em julho, o que significará um aumento substancial da taxa de juros em 7 pontos percentuais. Medidas tradicionais sinalizavam que as condições monetárias já estavam extremamente apertadas desde o final do ano passado e, considerando a defasagem natural da política monetária, podemos afirmar que os últimos aumentos da taxa Selic impactarão negativamente a demanda doméstica nos próximos trimestres.

 

=> Ajuste do custo do trabalho

O custo unitário do trabalho permanece muito elevado. As empresas estão cortando custos, mas a receita está recuando no mesmo ritmo. Isso significa que a lucratividade corporativa continua em patamar deprimido e, consequentemente, o ajuste do mercado de trabalho está apenas no começo. Reiteramos nossa visão de que a recuperação do lucro passa, necessariamente, por um processo de corte na folha de pagamentos mais acentuado do que a redução da demanda agregada. Assim, estimamos que a taxa de desemprego atingirá cerca de 10% no final do próximo ano. Redução do nível da massa salarial real nos próximos trimestres também reduzirá o nível de consumo das famílias.

 

Importante lembrar que a ausência de consumo manterá o nível de utilização de capacidade instalada das empresas em patamar historicamente baixo, o que inibe o início de um ciclo de investimentos. Assim, a formação bruta de capital fixo (investimento) deverá continuar retraindo no próximo ano.

 

A retração da demanda doméstica reduz importações e impulsiona o saldo comercial. De fato, o saldo comercial já acumula resultado positivo de USD 2,2 Bi nesse ano e, utilizando nosso ajuste sazonal, acumula saldo positivo em USD 4,9 Bi. Essa reversão está baseada em queda abrupta das importações ao longo do primeiro semestre. Dessa forma, avaliamos que a balança comercial alcançará superávit de USD 12 Bi em 2015 e, pelo menos, USD 25 Bi em 2016. Enfim, as contas externas estão melhorando rapidamente, corroborando nossa visão de que a taxa de câmbio real já está alinhada para um forte ajuste do balanço de pagamentos.

 

Outra consequência desse processo de ajustes será uma importante desinflação ao longo dos próximos trimestres. A falta de demanda em relação à nossa capacidade de produção ajudará na redução das pressões inflacionárias nos próximos anos, especialmente nos preços livres, como sempre aconteceu. De fato, o salário médio nominal subiu apenas 3,5% em maio desse ano em relação ao mesmo mês do ano passado, muito diferente do aumento médio de 9,1% entre 2008 e 2014, o que contribuirá para a convergência do IPCA para o centro da meta. Não podemos esquecer que os preços administrados não apresentarão a mesma pressão desse ano nos próximos períodos.

 

Portanto, a inflação ao consumidor convergirá em direção ao centro da meta no final de 2016. Diante de um cenário recessivo e desinflacionário, o BCB deverá iniciar um amplo ciclo de queda de juros até abril de 2016 para suportar uma recuperação da demanda doméstica em 2017.

 

 

Esse documento contém informações e declarações prospectivas referentes ao mercado em geral, as quais não constituem fatos históricos e não há garantia de ocorrerão. O BNP Paribas Brasil não se responsabiliza por eventual perda causada pelo uso de qualquer informação contida neste documento. Este documento é de uso exclusivo do destinatário, não podendo ser reproduzido, ao todo ou em parte, sem prévio consentimento. Qualquer divulgação, cópia, distribuição ou qualquer ação conduzida ou omitida para que se baseie nisso, é proibida e pode ser considerada ilegal.

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki é economista-chefe do BNP Paribas Asset Management. Graduado em Economia pela UNICAMP, possui mestrado em teoria econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Iniciou sua carreira como economista no Banco UNIBANCO, passou pelo ABN AMRO Asset Management e juntou-se ao BNP Paribas Asset Management em agosto de 2006, como economista-chefe, tornando-se responsável pela área de Economia e Estratégias Macro a partir de julho de 2013.

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