Brasil: Por que estamos otimistas com o consumo das famílias?

O PIB real deverá expandir 0,7% nesse ano e, pelo menos, 3,7% no próximo ano. Reiteramos que a recuperação será sustentada pelo crescimento real do consumo das famílias em resposta aos estímulos realizados pelo governo federal. Estimamos que a liberação das contas inativas do FGTS, a antecipação do PIS/Pasep e a redução da taxa de juros devem aumentar o poder de compra das famílias entre R$ 155 bilhões e R$ 193 bilhões acumulado em 2017 e 2018, a saber:

  1. FGTS: a liberação de R$ 43 bilhões das contas inativas do FGTS no primeiro semestre deve ajudar a impulsionar o consumo das famílias ao longo da segunda metade do ano. Estimamos que menos da metade dos recursos liberados foram utilizados no segundo trimestre e, consequentemente, parcela relevante ainda será utilizada para consumo no futuro próximo.
  2. PIS/Pasep: a decisão de antecipar a liberação de cerca de R$ 16 bilhões para o final desse ano e início do próximo também aumentará o poder de compra das famílias.
  3. Pagamento de juros: a redução da taxa Selic de 14,25% a.a. para 7,00% a.a. continuará diminuindo a taxa de juros da concessão de crédito e, consequentemente, as famílias poderão renegociar dívida passada por outra de menor custo. A taxa de juros do estoque da dívida atingiu 26% a.a. em março desse ano, o que representava dispêndio anualizado de R$ 401 bilhões com pagamento de juros. O repasse da queda da taxa Selic permitirá que o dispêndio com pagamento de juros seja reduzido para R$ 305 bilhões ao ano. Ou seja, estimamos que o poder de compra das famílias aumentará em R$ 96 bilhões pelo efeito renegociação de dívida. Importante verificar que uma eventual redução do spread bancário para a média histórica diminuiria o pagamento de juros em R$ 134 bilhões.

Dessa forma, assumindo a hipótese conservadora de manutenção do atual spread bancário, as famílias receberão incremento do poder de compra de R$ 155 bilhões ou 3,8% do consumo. Isso garante o crescimento do PIB real em 3,7% no próximo ano. Mas, no caso de redução do spread bancário, o poder de compra receberá um impulso extraordinário de R$ 193 bilhões ou 4,7% do consumo, o que coloca um vies para cima no nosso cenário base.

Quais são as consequências de um forte crescimento em 2018? Do lado positivo, esperamos pela recuperação da arrecadação tributária e déficit primário em ‘apenas’ 1,8% do PIB, melhor do que a meta oficial. Do lado negativo, as importações devem subir em torno de 8% e o deficit da conta corrente caminhará para 2,4% do PIB. Além disso, os setores mais sensíveis ao ciclo econômico devem encontrar espaço para recomposição de margem operacional através de aumento de preços, o que levará a inflação para a meta.

Não esqueça que a própria autoridade monetária escreveu na última ata do Copom que “as atuais taxas de juros reais ex-ante já têm efeito estimulativo sobre a economia”. Isso significa que a taxa de juros já está abaixo da taxa de juros neutra e, naturalmente, a taxa Selic precisará ser elevada no futuro. Dessa forma, acreditamos que o BCB será forçado a aumentar a taxa de juros a partir do quarto trimestre do próximo ano para manter a projeção de inflação na meta em 2019.

Portanto, não subestime os estímulos cíclicos do governo sobre a atividade doméstica. O impacto sobre o consumo das famílias e o faturamento das empresas está apenas começando e acelerará substancialmente nos próximos trimestres. Por outro lado, não extrapole o forte crescimento cíclico de 2018 e 2019 para a eternidade, pois ainda não resolvemos os problemas da produtividade e da infraestrutura de longo prazo.

 

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Eduardo Yuki

Eduardo Yuki

Eduardo Yuki é economista-chefe do BNP Paribas Asset Management. Graduado em Economia pela UNICAMP, possui mestrado em teoria econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Iniciou sua carreira como economista no Banco UNIBANCO, passou pelo ABN AMRO Asset Management e juntou-se ao BNP Paribas Asset Management em agosto de 2006, como economista-chefe, tornando-se responsável pela área de Economia e Estratégias Macro a partir de julho de 2013.

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